Discussão Social

Muito mais que um rostinho bonito: o protesto venceu no Miss Peru

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A lenda que ainda paira sobre as feministas como sendo carrancudas, raivosas e frígidas nasceu a partir de um assustado olhar masculino sobre a rebeldia das mulheres. Era década de 1960, uma época marcada pela luta em prol dos direitos civis, contra a segregação racial nos EUA e contra a guerra do Vietnam. Época também da criação da pílula anticoncepcional, que proporcionou às mulheres um inédito controle reprodutivo. Nesse caldeirão de mudanças eclodiu um movimento que decidiu sair às ruas não apenas para trabalhar, mas para reivindicar maior liberdade sexual, reprodutiva e estética. As famosas queimas de sutiãs protagonizadas por donas de casa e jovens norte-americanas dessa época entraram para o imaginário moderno como uma espécie de inquisição às avessas, na qual as outrora bruxas vingavam-se do domínio masculino jogando em fogueiras místicas um símbolo da opressão sobre o corpo feminino: o sutiã, criado para disfarçar peitos “caídos”.

60 bra foto inc3adcioO movimento ficou conhecido como “segunda onda do feminismo” e contribuiu para a importante conquista de independência da mulher nos campos afetivo, político e econômico. No entanto, a lenda correu junto ao avanço e a ideia de que feministas sejam “feias” se tornou uma espécie de senso comum volta e meia trazido à toma para ridicularizar ou desmerecer os questionamentos femininos acerca dos padrões, principalmente os de beleza.

Bem, uma atitude tomada pelas candidatas ao concurso de Miss Peru deste ano, em Lima, provou para quem quisesse ver que esse estereótipo em torno do feminismo está completamente equivocado. Diante do público formado por jurados, membros da imprensa, além dos milhares de telespectadores que assistiam à premiação pela TV, 23 beldades peruanas desfilaram contra o assassinato sistêmico de mulheres em seu país e mandaram um recado explícito: o feminismo é uma luta de todas as mulheres, estejam elas dentro dos padrões ou não.

“Minhas medidas são: 2.202 casos de feminicídio nos últimos nove anos no meu país”, divulgou uma das candidatas antes de dar espaço para outra colega. “Minhas medidas são: 81% dos agressores de meninas menores de cinco anos são pessoas próximas da família”, afirmou a candidata seguinte. A iniciativa de denunciar a violência contra a mulher partiu da própria organização do concurso. Enquanto as candidatas desfilavam, manchetes que noticiavam casos de agressão à mulher eram exibidas no telão. Todas as 23 concorrentes ao título de miss se pronunciaram contra a violência. As perguntas feitas pelos jurados também refletiram sobre o tema. Àquela que acabou tornando-se vencedora do evento, Romina Lozano, foi questionado o que ela achava que deveria ser feito para diminuir os índices de assassinatos de mulheres no país.

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            Mais bonitas pra quem?

Populares em todos os países do mundo, os concursos de beleza têm a sua própria cota de contribuição à sustentação e ao fortalecimento de padrões estéticos que favorecem uns poucos e excluem a maioria das pessoas. Nesses eventos, os corpos, as medidas, as roupas, as posturas e o intelecto das mulheres são avaliados para que, ao final de uma sabatina, seja escolhida aquela que represente a mais bela e simpática de seu país. A mulher ideal. A mais desejada. Todas as concorrentes, é claro, são magras. A maioria delas, brancas. As vencedoras, mesmo em países com um longo passado escravocrata como o Brasil e outros da América Latina, também são em sua maioria brancas.

Se lembrarmos que Pierre Bourdieu caracterizou violência simbólica como um tipo de agressão que acontece pelas vias da coação moral e psicológica, podemos entender como os concursos de miss contribuem para a manutenção de um controle sutil do corpo feminino, controle este que serve a interesses culturais e econômicos. Ao reforçarem normas e estereótipos em torno do belo, excluindo a diversidade de formas nesse processo, estes concursos ajudam a violentar simbolicamente todos aqueles que não se encaixam nos padrões, excluindo assim a multiplicidade de belezas que constitui a raça humana. As consequências de um processo sutil como esse são ainda mais desastrosas se levarmos em conta que suas “vítimas”, dentro ou fora dos padrões, demoram a perceber o tipo de influência sobre a qual estão submetidas e, por isso, ajudam a manter as estruturas que as oprimem. É aí que se desenvolvem doenças como a anorexia, a bulimia e outros distúrbios ligados à aparência.

Mas, se por um lado é responsável por fomentar os estereótipos de beleza, por outro, os concursos não os criaram, sendo mais um “sintoma dos tempos” do que os causadores da doença. Por isso mesmo, quando um evento com esse simbolismo utiliza seu espaço para dar visibilidade a estéticas que estão fora da norma, ou a notícias que não são agradáveis de ler, é sinal de que a sociedade como um todo, também, está mais aberta para questionar os padrões por ela criados e estabelecidos, e ao mesmo tempo aceitar aqueles que são vítimas desse processo normativo.

A vitória da angolana Leila Lopes, em 2011, como Miss Universo, demonstra um pouco da abertura em relação a outros tipos de beleza. No Brasil, as escolhas consecutivas de Raissa Santana, no ano passado, e de Monalysa Alcântara, este ano, como misses, ambas mulheres negras, demonstra igualmente certo avanço, ao menos neste campo simbólico. Junto a Deise Nunes, eleita Miss Brasil em 1986, Raissa e Monalysa são únicas mulheres negras escolhidas misses na história de nosso país, onde 54% da população se declara como preta ou parda.

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Uma questão de responsabilidade

À parte a discussão sobre as imposições estéticas em torno do corpo feminino, a divulgação dos dados sobre a violência contra a mulher no Miss Peru sinaliza também a necessária e bem-vinda tomada de atitude por parte de uma entidade que tem ampla aceitação social, como é o caso do evento. Em uma sociedade profundamente desigual em questões classe, etnia e gênero, isso tem seu impacto.

No mundo todo, estima-se que cerca de 106 mil mulheres foram assassinadas entre os anos de 1980 e 2013 apenas por sua condição de ser mulher, segundo a Orgnaização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, quinto país do mundo no número de feminicídios, cerca de 15 mulheres são assassinadas por dia apenas por serem mulheres, segundo o Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil”.

A iniciativa de denunciar esse tipo de violência é reflexo de um debate que tem sido trazido cada vez mais à tona nas esferas familiares, acadêmicas, escolares e profissionais. A conquista de direitos experimentada pela mulher nas últimas décadas é uma luta também pelo direito à vida e à autonomia de seus corpos, batalha na qual muitas vezes o oponente é um companheiro ou membro da própria família.

O cerceamento da liberdade feminina, a restrição a seu corpo ou o controle sobre suas escolhas por parte de um homem em situação de privilégio demonstra que, se houve vários avanços no campo público, do trabalho, profissionalização e instrução, uma batalha mais velada e difícil se trava no campo privado, onde não existem normas legisladas para regular os comportamentos e onde as funções e os papeis de poder são estabelecidos de acordo com as referências culturais particulares trazidas por essas pessoas. Nesses ambientes, a consciência da autonomia da mulher e de seu protagonismo sobre a própria vida só ocorrerá após um lento, complexo e desafiador processo de reeducação pela qual devem passar todos os homens. Como sociedade, temos todos uma grande responsabilidade nisso. Que ninguém fuja a ela.

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