Redação Modelo

A redação dessa aluna vai surpreender você

metamorphosis
Na imagem em destaque está uma ilustração que representa o personagem Gregor Samsa, protagonista da obra A Metamorfose, clássico da literatura mundial citado pela aluna Elisângela Perussi em sua redação.

Elisângela Perussi
Exame Nacional do Ensino Médio, 2017

A história de Gregor Samsa, protagonista da famosa obra “A metamorfose”, de Franz Kafka, pode ser facilmente aplicada à questão da formação educacional de surdos no Brasil, eis que se assemelha à realidade daqueles que são destituídos de sua humanidade, afligidos pelos sentimentos de solidão e desprezo numa sociedade intransigente às diferenças. Esse cenário tem como origem inconteste o aprofundamento do capitalismo. Contribuem para solidificar essa problemática a mercantilização dos corpos, bem como um sistema de ensino que não convida à reflexão.

Explicita-se como relevante, assim, a compreensão de que o culto ao corpo, aliado à ideologia capitalista, contribui para o histórico descaso no tocante à educação da pessoa surda no país. Isso ocorre pois na sociedade pós-moderna, a noção de corpo-máquina advinda com a Revolução Industrial deu lugar à ideia de corpo-mercadoria, uma vez que o corpo está inserido numa extensa rede de interesses mercadológicos, devendo apresentar-se livre de avarias, numa metáfora trágica da superficialidade e individualismo contemporâneos. Como consequência desse processo de normatização social, intensificam-se preconceitos e atitudes de intolerância contra aqueles que não se adequam aos padrões consolidados, predominando no imaginário coletivo a noção equivocada de que é a limitação física que impede a inclusão da pessoa surda nos estabelecimentos de ensino, e não as barreiras impostas pela sociedade que não está apta a coexistir com as diferenças.

Além disso, não se deve esquecer que a homogeneização do método de aprendizagem, somada aos interesses do mercado, é a responsável pela incivilidade com que os surdos são tratados na atualidade. Essa situação ocorre porque a escola é responsável por reforçar e manter as relações de poder existentes, uma vez que as preferências e opções da maioria são impostas a todos, travestidas de bem comum. Esse raciocínio está em sintonia com o pensamento do educador Paulo Freire, que aponta a ausência de neutralidade na educação, na medida em que a constante queda nas matrículas de surdos na Educação Básica/Especial reflete o caráter segregacionista, individualista e competitivo do sistema de ensino nacional, contrapondo-se ao ensino cidadão e ao entendimento da diversidade que dele se espera.

Diante do exposto, depreende-se que a carência na formação educacional dos surdos tem como origem irrefutável a constante busca pelo progresso econômico. Assim, com a finalidade de solucionar essa problemática, o governo federal, em parceria com seus órgãos e Ministérios, deve criar um Programa Nacional de Inclusão Social da Pessoa Surda, que proponha ao Congresso Nacional a criação de leis para alterar as Diretrizes Curriculares Nacionais, incluindo o respeito às limitações corporais e o ensino do método libras enquanto conteúdos obrigatórios dos Ensinos Fundamental e Médio. Ademais, esse Programa deve criar um Fundo de Investimento que financie a realização de cursos de capacitação de professores como forma de ampliar e humanizar o ensino de pessoas surdas. Por fim, incentivos fiscais devem ser concedidos às empresas que contratem surdos em número superior à determinação legal, assim como àquelas que ofereçam cursos profissionalizantes e atendimento psicossocial a esse grupo tão invisibilizado socialmente.

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