Precisa de ajuda?
Servidor I
Anterior
Próximo
Servidor II
Anterior
Próximo

Como fazer um genocídio à brasileira

Caetano Mondadori
Caetano Mondadori

As charges que ilustram essa matéria são do artista Latuff. 

“A história é escrita pelos vencedores”, disse George Orwell, autor de ‘A Revolução dos Bichos’ e ‘1984’, duas obras indispensáveis para compreender a ascensão do totalitarismo no século passado – e nesse. É curioso quando se pensa que, se teve a oportunidade de escrever, Orwell também havia vencido. Ele era homem e branco. Nascera vencedor, mesmo sem saber. Privilegiado pelo gênero e pela cor que deram-lhe a chance de portar papel e caneta em um mundo em que boa educação, bom trabalho e boas condições de vida são sempre determinados por questões de gênero, classe e pele.

Se o que lemos é o registro dos que venceram, quantos outros escritores, tão bons quanto Orwell, mas pretos, mulheres ou gays, foram impedidos de escrever? Quantos não se perderam no implacável dedilhar de páginas da história, obrigados a desempenhar trabalhos forçados apenas por sua cor de pele, por não serem homens ou mesmo por viverem o afeto fora de um padrão normativo; em suma, por terem sido “derrotados”?

A história tem sido escrita por mãos brancas, masculinas e heteronormativas desde sempre, e essas mãos vêm falhando continuamente em conviver com a diferença.

ViolenciapolicialEm 20 de novembro celebra-se o Dia da Consciência Negra. Dia de refletir sobre um “diferente” que é alvo de contínuas violentações na história brasileira: o negro.

Vejam a riqueza arquitetônica e social das grandes cidades europeias: não foram elas construídas em parte com o dinheiro que o sangue negro derramou por séculos nas colônias ameríndias e africanas? Vejam as estatísticas da violência nas cidades brasileiras, que revelam: de cada 100 jovens assassinados no país, 71 são negros. Vejam os canais abertos de televisão do país, incapazes de transmitir a diversidade étnica que salta aos olhos nas ruas. O que foi dado à população negra neste país senão as senzalas, favelas, cortiços? O que o Brasil  ofereceu ao povo que para cá foi contrabandeado, depois liberto, mas ainda assim impelido a viver indigente em uma nação que jamais soube para o que havia nascido? O que este confuso país continua a oferecer para abrandar as diferenças e desigualdades impostas historicamente a povos que seguem marginalizadas e explorados?

“Passado negro”

Com o fim da escravidão, o processo de apagamento do negro na sociedade brasileira se consolidou através das facilidades concedidas pela recém-criada república brasileira aos imigrantes europeus que desejavam ingressar no nosso país. Era uma forma de transformar o povo brasileiro num “povo branco”, clareando-lhe mesmo a pele. Não houve iniciativas no sentido de reconstruir a dignidade daqueles que aqui haviam sido escravizados por séculos, oferecendo-lhes educação, empregos remunerados ou espaço de representatividade no âmbito político. Pelo contrário, esses que já vieram em condições sub-humanas passaram a integrar um contingente marginalizado que o país Brasil não queria ter de dar conta. Abriram-se as portos do Brasil para italianos, holandeses, portugueses e alemães pobres que se estabeleceram no sul do país, para trabalhar nas lavouras, e fecharam as portas da nação Brasil para os brasileiros descendentes de africanos que, libertos da condição de escravos, só tinham como opção sub-empregos, sub-remunerações, sub-vidas.

Esse “branqueamento” enquanto projeto é um fenômeno que se repete ainda hoje de modo velado nas decisões judiciais, governamentais e no próprio convívio social nacional. Velado por não fazer parte de um projeto aberto, divulgado por alguma instituição; por outro lado, é escancarado quando analisa-se que suas práticas prevalecem a olho nu, seja pelas vias da exclusão ou do extermínio, noticiadas amplamente em pesquisas estatísticas e nos noticiários. Elas comprovam: o jovem preto, pobre e periférico segue como o inimigo número 1 da confusa sociedade brasileira.

195884948

Genocídio da população negra

Génos vem do grego, significa “raça, povo, tribo, nação”; caedere, de origem latina, quer dizer “destruição, aniquilamento”. Juntas formam a palavra “genocídio”, utilizada para descrever o assassínio sistemático de um povo ou grupo étnico, com ameaça de aniquilação total. O termo tornou-se popular com o holocausto nazista contra os judeus durante a II Guerra Mundial; sua sombra pairou novamente na modernidade com o massacre de tutsis contra hutus em Ruanda, em 1994. É considerado um crime de lesa-humanidade.

No Brasil, com a Convenção Para a Prevenção e a Repressão ao Crime de Genocídio, de 1952, caracterizou-se genocídio como o ato de assassinar membros de um grupo; atentar gravemente à integridade física e mental de seus membros; submeter de forma deliberada o grupo a condições de existência que acarretarão a sua destruição física, total ou parcial; impetrar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; e transferir de modo forçado as crianças do grupo para outro grupo. Refletindo sobre a situação do cidadão negro neste país, é impossível não concluir que ocorre um genocídio, intencional ou não, do povo preto em território nacional.

https://www.brasildefato.com.br/sites/default/files/u1073/latuff%207.jpg

O Mapa da Violência, divulgado pela última vez em 2015, e o Atlas da Violência 2017 revelam que, no país da “democracia racial”, jovens negros e do sexo masculino são assassinados em índices tais que é como se vivessem em situação de guerra. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado por aqui. Os negros possuem 23,5% maiores chances de serem mortos que os brancos. Enquanto os números da violência contra as mulheres brancas caem, os índices sobre as mulheres pretas subiram 22% no ano passado.

Os números não existem sozinhos, eles falam do trágico fracasso do Brasil, enquanto nação, em acolher, formar e dar oportunidades a uma parcela de sua população que corresponde a 54% do total de habitantes no país. O negro foi liberto, mas o imaginário popular ainda não o alforriou do papel de escravo. Não foram dadas condições para que o ex-escravo, recém liberto, se inserisse na sociedade. Não foram criadas ferramentas ou dispositivos para que o racismo que ocasionou a escravidão fosse não apenas desconstruído, mas demolido em sua essência. Não houve iniciativas de formação educacional, de resgate, para que a população negra competisse no campo social em igualdade de oportunidades em relação aos brancos.

genocidio negro by latuff2

Ao contrário, as pessoas negras foram retiradas das senzalas em direção aos cortiços e posteriormente às favelas, impossibilitadas de estudar – privilégio da elite no início da república – e de obter trabalhos bem remunerados, sendo, assim, empurradas silenciosamente rumo aos bolsões de pobreza dos quais continuam a ser os maiores habitantes em percentual; mas dos quais, também, insistem em sair desafiadoramente. É claro que há exceções. Hoje é possível ver homens e mulheres negras em posições de destaque intelectual, econômico e político. Mas dado o contingente populacional representado por pretos e pardos, bem como o histórico escravocrata desse país, a representatividade ainda é mínima, opaca.

latuff%20m%C3%A3es%20de%20maio

 

O fracasso da mãe pátria

O país Brasil tem uma dívida história com seus indígenas e negros. Para que possa tornar-se nação, no sentido pleno do termo – de comunidade e unidade – terá de se voltar continuamente para essas duas parcelas da população e resgatar seus direitos de maneira radical, assegurando-lhes a segurança, o respeito e as oportunidades de vivências livres às quais nunca tiveram direito. Desenvolver uma educação de base de qualidade é parte fundamental nesse processo, pois só por meio dela será possível fazer rachaduras nas mentalidades cristalizadas baseadas no ódio à diferença e na manutenção de preconceitos tanto sociais quanto raciais.

Com as recentes medidas populares dos governos de esquerda, pela primeira vez os jovens negros tiveram a chance em larga escala de ingresso efetivo na vida acadêmica e no mercado de trabalho. Além disso, os intelectuais negros têm insuflado sua voz de resistência para que os pretos e pardos brasileiros percebam que a violência da qual são os maiores alvos não faz parte de uma aleatoriedade do destino, mas cumpre uma função história de afunilamento social que só pode ser considerada genocida, intencionalmente ou não. Isso é só o começo.

193936700Para o cientista político Luiz Gonzaga de Souza e Lima, somente uma “refundação do Brasil”  – título também de seu mais famoso livro, “A Refundação do Brasil” – somente a reinvenção do país baseada em outros princípios, que não os seus originais, serão capazes de transformar as relações sociais que, desde o descobrimento desses territórios, foram pautadas pela mercantilização dos corpos e da natureza, servindo sempre a interesses econômicos, quase empresariais. O autor demonstra com imensa sagacidade que, ao ter surgido quase como um “empreendimento econômico”, o Brasil começou de um jeito anômalo no qual as múltiplas experiências, subjetividades e coletividades foram encaradas desde sempre como mero plano de fundo para a efetivação do comércio – não como protagonistas do nascimento de uma “nação”. Daí a pouca importância que os governos e as sociedades recém-criadas deram às desigualdades sociais ou à violência perpetradas contra seus membros ao longo dos séculos. Desde que a engrenagem política e econômica siga girando, a qualidade de vida da população não interessa.

Esse modelo, porém, não se sustenta. A opressão por ele gerada é o próprio combustível para que as transformações internas aconteçam. Em um mundo onde são continuamente brutalizados, os pretos continuarão emergindo e lutando por representatividade, pelo resgate de suas culturas, de suas raízes africanas e por sua individualidade enquanto povo de quem foi roubado tudo, até mesmo a história. Assim como os indígenas continuarão, as mulheres continuarão e os gays continuarão. A sociedade brasileira terá de aprender a conviver com esse grande “outro” que, no fim das contas, é um grande “nós”, já que tanto o país Brasil quando a nação Brasil e o povo brasileiro foram paridos de ventres negros, pardos, indígena, marginais. A busca desses grupos por equidade deve nortear as revoltas populares dos próximos anos. E o resultado disso deverá ser, por fim, a derrubada do mero nascimento como homem, hétero e branco, o seu inadmissível estatuto de “privilégio”.

Compartilhar o artigo:
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no pinterest
Quer ler mais?
Artigos relacionados:
como começar a redação do Enem
Estrutura da Redação
3 Dicas práticas para começar a redação do ENEM

A dúvida sobre como começar a redação do Enem persegue muitos alunos. Afinal, fazer uma dissertação até pode ser fácil, mas o difícil mesmo é começar, não é? Eu entendo bem esse sentimento de insegurança por ter mentorado algumas centenas de alunos nos últimos anos. O maior desejo de quem treina redação para Enem é

Leia mais »

Quer conhecer meu curso semestral?