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Termo ferramenta: fetichização do negro

Caetano Mondadori
Caetano Mondadori

Nas últimas semanas, essa imagem tirada pelo fotógrafo Lucas Landau durante o Réveillon na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, causou um intenso debate nas redes sociais. A imagem, que, antes de tudo, retrata o encantamento de uma criança diante de um espetáculo realmente digno de assombro, acabou revelando sem querer como os indivíduos negros são percebidos na sociedade brasileira. Aqueles que viram na fotografia um retrato da desigualdade social do país manifestaram uma visão na qual a pobreza está inerentemente ligada à cor, e especificamente à cor preta. Daí o fato das pessoas associarem automaticamente a imagem do garoto na praia a uma criança de rua. Todo esse raciocínio demonstra uma lógica precária que reafirma continuamente que todo indivíduo negro é, necessariamente, pobre.

Falando sobre o assunto, o escritor Anderson França cunhou a expressão “fetichização do negro” para expressar o movimento daqueles que interpretaram a foto como um retrato do racismo/desigualdade. Para o escritor, essas pessoas não estavam preocupadas com o menino em si, quem ele era ou onde estavam seus pais. Anderson França afirma que os internautas que compartilharam essa imagem tinham interesse em mostrar quão preocupados estavam com a situação do menino, revelando que o compartilhamento dessa foto não diz respeito ao menino em si, mas com a vaidade de quem divide esse conteúdo com os demais.

Assim como nessa situação, na escrita de uma redação, a expressão “fetichização do negro” pode ser utilizada para denunciar o movimento inconsciente de se apropriar da imagem da pessoa negra, de sua história e das narrativas por trás dela, como um meio de chamar atenção para si próprio e, desse modo, ganhar atenção e construir, por meio do corpo negro, a falsa ideia de que somos mais solidários e preocupados com o outro. Há certo gozo, ainda que simbólico, de uma identidade meramente ficcional que formamos para nós mesmos ao compartilhar esses conteúdos.

Fetichizar é extrair um prazer indireto de uma parte do corpo ou da condição inteira de alguém que é reduzido a uma única função no universo de quem o fetichiza: dar prazer, mesmo que indiretamente. Fetichizar é, ao mesmo tempo, atribuir um valor de objeto ao que não é objetificável. O garoto, um ser humano, é objetificado na medida em que não lhe é permitida outra narrativa, a não ser a da pobreza. É tirada dele a possibilidade de uma história. Ele deixa de ser sujeito para se tornar personagem a serviço desse gozo simbólico do ego. Para visualizar tal objetificação, basta se perguntar: e se o menino fosse branco, todo esse debate existiria?

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