Discussão Social

RELEMBRE: Xingar não é argumento, por Caetano Mondadori

professor Caetano Mondadori

Eu já cometi muitas vezes o pecado da intolerância. Aprendi com meus erros as falhas dos recursos que eu usava ao debater. Justamente por entender quão grave é a questão da intolerância dentro do processo textual é que eu posso dizer que me preocupa muito o acirramento do debate político no Brasil. Cada vez mais vejo pessoas brigando em suas redes sociais, dizendo que vão “fazer um limpa” em seus grupos de amigos, que bloquearam algum parente em um determinado aplicativo e que não querem nunca mais olhar o perfil daquele fulano que defende você sabe quem.

Devo confessar: eu já fiz tudo isso. No entanto, preciso compartilhar algo que aprendi com essa experiência de isolamento. Nos afastarmos daqueles que pensam diferente de nós só aprofunda nossa intolerância e raiva. Nós deixamos de seguir aqueles amigo do trabalho que achamos muito conservador, seja lá o que isso signifique, e depois deixamos de seguir aquele primo que mora no interior e apoia algum político extremista. Assim, ficamos com a falsa sensação de que as coisas estão bem. Porém, cada vez mais nós estamos fazendo com que nossas redes sociais se tornem nossa “imagem e semelhança” e isso faz com que não consigamos conviver com a diversidade de ideias.

Se somos feministas, seguimos muitas pessoas com essa mesma mentalidade; se somos evangélicos seguimos muitas pessoas com as mesmas crenças e se somos de alguma outra minoria organizada também temos a falsa sensação de que todos pensam como nós, pois só conversamos, lemos e nos concentramos na nossa perspectiva textual. Quando nos deparamos com alguém que pensa diferente de nós – seja nas redes sociais ou na vida prática – simplesmente não conseguimos trabalhar nossos textos de maneira eficiente porque não estamos preparados para lidar com um argumento que seja construído fora dos nossos valores.

Além disso, uma questão muito grave desse processo de isolamento via redes sociais é a supervalorização dos nossos pontos de vista. Começamos a criar limites claros do que seria aceitável dentro de um processo de debate e quando alguém pensa diferente de nós, por mais absurdo que essa opinião nos pareça, simplesmente não argumentamos com essa pessoa. Nossa postura natural se torna a agressão e a humilhação pública do outro, o que aprofunda a ideia coletiva, de todos os lados, de que o ideal é se isolar “desse tipo de gente aí”.

Olhem as timelines de vocês e percebam isso. As pessoas dizem que querem debater, mas antes de qualquer tipo de verificação do debate elas já se referem umas as outras como “coxinhas” ou “petralhas”. Isso independe de nossas ideologias particulares ou da visão de mundo que temos. Quando nós queremos debater política, nossa intenção é mostrar nosso ponto de vista e tentar convencer o outro de que ele é válido e que, inclusive, poderia ser adotado pelo interlocutor. No entanto, ao chamar a pessoa por um termo como “coxinha” não me parece que ela estará disposta a adotar nosso ponto de vista, pois o tom pejorativo de nossa fala anula a qualidade de nosso argumento.

Acredito que esse é o ponto mais eficaz a ser discutido aqui: a questão da violência no debate político brasileiro é sim uma questão argumentativa. Nós somos incapazes de construir um debate sério porque não conseguimos pensar a respeito das ideologias e pontos de vista que defendemos sem considerar a possibilidade de que essas ideologias não sejam absolutas. Somos apegados a esse ou aquele ponto de vista e quando alguém contradiz nosso pensamento nos sentimos feridos de morte como se a pessoa anulasse toda a nossa dignidade e caráter. Ao confundirmos nossas ideologias com quem nós somos, defendemos nossos pontos de vista como se fossem nossa honra e acreditamos que qualquer consideração é um ataque pessoal. Nossa resposta óbvia é a ofensa, a humilhação, o rebaixamento do outro. Não! Esse tipo de atitude precisa parar. Todos nós somos responsáveis pela qualidade do debate democrático e para isso precisamos manter o respeito.

Como professor de redação, preciso realmente dizer que vejo nessa questão nosso triste quadro de alfabetização.  Segundo pesquisa recente do Instituto Paulo Montenegro a cada grupo de 100 brasileiros apenas 8 podem ser considerados plenamente alfabetizados. Quando falamos em proficiência da língua não estamos apenas discutindo o domínio gramatical do português, mas também a competência de interagir na leitura e na escrita de maneira eficiente em diferentes situações sociais.

O indivíduo que não consegue se expressar de maneira clara a respeito de sua opinião sobre algo, ou simplesmente não consegue escolher conscientemente se deve ou não usar um palavrão para se referir a uma situação ou alguém não poderia ser considerado plenamente alfabetizado. Alfabetização plena aqui, se refere ao domínio de todas as habilidades e recursos disponíveis em uma língua, tanto falada quanto escrita. Se toda vez que você vai dar sua opinião você precisa xingar alguém, provavelmente seus recursos textuais estão abaixo daquilo que é esperado, afinal, xingar os outros não é argumento. É uma expressão da sua insatisfação, mas não é argumento, pois o seu interlocutor não consegue entender melhor seu ponto de vista e fazer escolhas a partir de seu palavrão.

O verdadeiro argumento é aquele que oferece ao outro a possibilidade de refletir a partir das justificativas que você ofereceu. Quanto mais justificativas, mais o seu interlocutor poderá avaliar seu ponto de vista e escolhe-lo ou não. Algumas pessoas, mesmo diante de muitos argumentos, não mudam seus pontos de vista. O que devemos fazer diante desse tipo de gente? Se pensou que essas aqui devam ser xingadas, você não entendeu essa coluna. Aqueles que mesmo diante de argumentos não mudam de opinião devem ser deixados em paz. Só lembre que deixar em paz não significa excluir do facebook.

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